Deixou tudo para trás… Não há tempo... No bolso leva apenas as memórias... Agora tem um só objectivo: a fuga! Depois disto, o relógio parou: malas que ficaram para trás, livros abertos, roupa pendurada nos cabides, as panelas que ficaram sobre o fogão. Tudo parece estar ainda à espera de alguém. Apenas os pombos e a luz dão uso ao espaço. Um prédio em degradação, que não atrai novos moradores e onde restam apenas três inquilinos nos andares térreos. Os andares de cima estão intocáveis, tal como no dia em que os moradores abandonaram o local. Os objectos continuam no sítio em que foram deixados e nem quem vive no prédio gosta de subir “lá a cima”. A primeira vez que visitei o local fez-me querer gravar aquela paragem no tempo. A idade do prédio parece não querer aguentar muito mais o peso que tem sobre os ombros e aguarda, silenciosamente, que alguém tome conta dele, que memorize o que está guardado dentro de si. Decidi criar um projecto fotográfico sobre este espaço antes que as memórias desapareçam para sempre. Fiz várias visitas ao local e falei com os poucos moradores. Todos falaram no receio de ir “lá a cima”, sítio que lhes traz memórias tristes. Este local mexe com sentimentos profundos e, ao mesmo tempo, é um local bonito. Nas primeiras visitas, só pensava em fotografar os objectos perdidos, por representarem o mais valioso que existia no local. Depois, com o passar dos dias, comecei a observar os espaços vazios, que me faziam imaginar o passado. Cada canto começou a fazer parte de mim e da câmara fotográfica. Através das minhas imagens, pretendo mostrar a melancolia que senti ao deambular por aquele espaço. O abandono em que se encontra o local, que remete para a solidão, para um sentimento de vida interrompida por uma fuga.